"A verdadeira poesia não diz nada, apenas destaca as possibilidades. Abre todas as portas. As pessoas podem atravessar aquela que se lhes ajusta." Jim Morrison

“Memórias do subsolo”

“ Oh, se eu não fizesse nada unicamente por preguiça! Meu Deus, como eu me respeitaria então! Respeitar-me-ia justamente porque teria a capacidade de possuir em mim ao menos a preguiça; haveria, pelo menos uma propriedade como que positiva, e da qual eu estaria certo. Pergunta: quem é? Reposta: um preguiçoso. Seria muito agradável ouvir isto a meu respeito. Significaria que fui definido positivamente; haveria o que dizer de mim. “Preguiçoso!” realmente é um título e uma nomeação, é uma carreira. Não brinqueis, é assim mesmo. Seria então, de direito, membro do primeiro dos clubes, e ocupar-me-ia apenas em me respeitar incessantemente. Conheci um cavalheiro que, a vida inteira, orgulhava-se com o fato de ser entendido em Laffite-(vinho francês Château-laffitte). Ele considerava isso sua qualidade positiva e nunca duvidava de si. Morreu com a consciência não só tranquila, mas triunfante até, e tinha toda a razão. E eu poderia, neste caso, escolher uma carreira para mim: seria preguiçoso e comilão, não do tipo comum, mas, por exemplo, dos que comungam com tudo que é ‘belo e sublime’¹. Que tal? Há muito que isto me vem à mente. Este “belo e sublime” apertou-me com força a base do crânio aos quarenta anos; sim foi aos quarenta, mas agora, oh, agora seria diferente! Imediatamente eu encontraria também o setor correspondente de atividade, ou, para ser mais exato: beber à saúde de tudo o que é belo e sublime. Eu me agarraria a toda oportunidade para, em primeiro lugar, verter uma lágrima na minha taça e, a seguir, esvaziá-la em intenção de tudo o que fosse belo e sublime; haveria de encontrar este belo e sublime até na mais ignóbil, na mais indiscutível das porcarias, e transformaria em belo e sublime tudo o que existisse no mundo. Tornar-me-ia lacrimejante como uma esponja molhada. Um pinto, por exemplo, pinta um quadro de Gué². Imediatamente, eu beberia à saúde do pintor que realizou o quadro de Gué, porque amo o que é belo e sublime. Um autor escreve “como apraz a cada um”³; imediatamente eu beberia à saúde de “cada um”, porque amo tudo o que é “belo e sublime”. E exigiria por isto respeito a mim mesmo, e perseguiria quem não me tributasse este respeito. Vive-se com tranquilidade, morre-se solenemente… É o encanto, um verdadeiro encanto! E eu criaria então um tal barrigão, armaria um tal queixo tríplice, elaboraria um tal nariz de sândalo que todo transeunte diria, olhando para mim: “Este é que é um figurão! Isto é que é verdadeiro e positivo!”. Seja o que quiserdes, mas é agradabilíssimo ouvir opiniões assim em nosso século de negação, meus senhores. ”

Nota de rodapé:
¹ Alusão à obra de Kant, ‘Observação sobre os sentimentos do belo e do sublime’ (1764). Segundo afirmação de I.Z. Siérman, em nota à edição soviética de 1956-1958, o livro tornou a expressão “belo e sublime” muito popular entre os críticos russo das décadas de 1830 e 1840.
² Alusão provável ao quadro de N.N. Gué (1831-1894) Vésperas secretas, exibido, em 1863, na exposição de outono da Academia de Belas Artes, e que provocou grandes discussões na imprensa, devido ao tratamento original, realista, de um tema religioso. Dostoiévski escreveria, em 1873, no ‘Diário de um escritor’, sobre o mesmo assunto: “No quadro… do Sr.Gué… saiu algo falso e uma ideia preconcebida, e toda falsidade constitui mentira e já não é realismo”.
³ Alusão ao artigo de Schedrin “ Como apraz a cada um”, publicado no ‘Sovrienmiérik (O Contemporâneo), em 1863.

Trecho do livro “Memórias do subsolo” de Fiódor Dostoiévski. (Capítulo VI 31-32)

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